


Reflexões sobre o desencanto
Se um dia se findar o encanto que sustém
o olhar que vê além da mágoa que apequena
o amor, que sai de cena, ou morre igual falena
na luz fatal e plena, em dor, que a faz refém.
Se um dia se findar o dom de amar, também,
do jeito que convém, que a todos asserena,
que a vida nos acena e exige, sem ter pena,
e que ninguém condena ou trata com desdém.
O que seria, enfim, viver sem ter afeto?
De mágoa ser repleto e, do ódio, um arquiteto,
um pobre ser abjeto e a tudo põe um fim.
Que se cultive, sim, nos campos da ternura,
o bem querer que cura a mais profunda agrura,
sem medo, sem censura e sem morrer de esplim.
Edir Pina de Barros