Dádiva
O corpo de quem ama é rio fluente
que, sôfrego, desliza sobre o leito,
amor que se apresenta liquefeito
entregue, sem ter pejos, ao que sente.
O corpo de quem ama é plena enchente
que rompe diques e canais, e a eito,
procura no alto mar, sem preconceito,
as vagas do prazer incontinente.
Cardumes de volúpia, em piracema,
desovam no aguapé, que deita flores
lilases sobre a pele d’água morna.
O corpo, assim, é dádiva suprema
um templo com vitrais multicolores:
é vida que se dá e a si retorna.
Edir Pina de Barros