Medusa?
De mármore, decerto, tu és feito,
impenetrável, qual o mar profundo...
Distante estás de mim e de meu mundo,
ainda que te deites no meu leito.
Eu miro teu semblante e, triste, espreito
o teu olhar apático e infecundo,
porém não vejo nada e, enfim, me afundo
no interno labirinto escuro e estreito.
Às vezes me pergunto - e mesmo cismo –
se escavei, sem querer, tamanho abismo
que agora, entre nós dois, está exposto.
Eu, que te adoro e fui a tua musa,
tornei-me soberana e vil Medusa
e transformei em mármore o teu rosto?
Edir Pina de Barros
Imagem: Caravaggio